20.12.08

CRÓNICAMENTE (I)

 

 

Os avós: Hoje enquanto olhava para eles perguntava-me se serão felizes. Ele sabe que se a mesa está posta ao meio-dia foi porque ela a pôs. Ele sabe que a cama está feita porque ela a fez. Ela sabe que se está a ver televisão foi porque ele a ligou, se a lareira está acesa foi ele que colocou a lenha, se as laranjeiras dão fruto foi porque ele as regou. Ele sabe que se a roupa está limpa foi ela que a lavou. Ela sabe que a prima do Canadá tem saudades porque ele leu-lhe as cartas. Ele sabe que se o telefone parou de tocar foi porque ela atendeu. Ela sabe que se a televisão está desligada foi ele quem carregou no botão. É uma dança diária em que cada um sabe o passo que deve dar a seguir. Já perderam a paciência um para o outro. Essa guardaram-na para os filhos e netos nos fins-de-semana, no Natal, nos aniversários e feriados. É com eles que partilham as conversas. Quando todos saiem entra o silêncio, apenas quebrado para as discordâncias. Já não se incomodam em tentar entender o outro. Já estão demasiado velhos para tentar agradar a alguém. Fica a sinceridade do "pareces uma bruxa com esse chapéu".

Gastaram as conversas. Entre eles já nada é desconhecido. Agora mal se falam porque passaram um vida inteira a falar e nada mais ficou para dizer.

Passamos a vida à procura da pessoa que nos completa, da alma gémea, há quem diga que o nosso objectivo como seres humanos é encontrar o amor eterno. Passamos quase, mais ou metade da nossa existência à procura daquela pessoa. Procuramos por todo o lado à espera dessa parte da vida que nos completa.

Passamos anos a pensar que o amor é eterno, apaixonamo-nos vinte vezes e mais vinte porque achamos sempre que é "aquele". No fim "aquele" ou já tem namorada, ou vai para fora, e os namoros à distância não resultam, ou não gosta de nós e quer ficar só nosso amigo. Outras vezes traí-nos. Outras somos nós que traímos, ou porque bebemos de mais, ou porque sim. Ainda assim pensamos que será sempre aquele e vamos a correr para o café, repetimos aos amigos a história, dizemos que nunca vamos amar mais ninguém na vida como a ele. Choramos à noite antes de adormecer, choramos no carro quando uma música menos propícia a alegrias passa na rádio, no leitor de mp3. Quase que choramos na rua quando nos recordamos do passado, dos beijos, dos jantares, dos passeios, e porque dormiram juntos, e porque acordaram juntos, do sexo, do amor. Um dia passa o desgosto. Porque o amor é efémero mas nós queremos sempre fingir que não. Queremos sempre sofrer mais do que da última vez que acabou porque desta é que era. Este é que era "aquele". O tempo passa e a história repete-se uma, duas, dez vezes. Até que um dia paramos. E se a televisão está ligada foi porque ele carregou no botão. Se o almoço está na mesa foi porque ela o fez. Chegamos ao fim da vida a pensar que nos enganámos. Que deviamos ter procurado melhor, esperado mais tempos. Que se calhar deviamos ter esperado por aquele que na altura tinha namorada ou que teve que ir para o estrangeiro. Olhamos para o lado e corremos o risco de ter uma pessoa que podia ter-nos amado mais, que podiamos ter amado mais, sentimo-nos incompletos para sempre porque agora é tarde de mais.

 

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L., às 20:43  comentar

De janis a 23 de Dezembro de 2008 às 22:28
Primeira vez que vejo o blog.
Estou deslumbrada. Pelas fotos, pela formatação, mas, principalmente, pelas palavras...

De L. a 23 de Dezembro de 2008 às 22:32
Só miminhos per me (:

De janis a 24 de Dezembro de 2008 às 08:47
Lol...
Com um blog tão interessante de se ler, mereces os miminhos.. ;)

De rod a 8 de Julho de 2009 às 10:29
fantástico

és a maior leonor

melhor blog que vi até hoje

só para informação, estou a ler do início :)

De L. a 8 de Julho de 2009 às 17:50
Ai homem, não faças isso (mas a esta hora já devo ir tarde)

"...things don't have to be extraordinary to be beautiful.
The ordinary could be just as beautiful."

Wicker Park